Passagem para um outro lado

Passagem para um outro lado - Teresa Milheiro

Exposição temporária que ocorreu entre 30 de junho e 15 de outubro de 2016.

 

No âmbito do Plano Tangente um programa de exposições temporárias do Museu do Dinheiro que visou a divulgação da criação artística emergente, nas suas várias disciplinas. O programa contemplou a apresentação do trabalho de artistas portugueses contemporâneos, em diálogo com a arquitetura do museu e as suas coleções.

Teresa Milheiro recria a imagética medieval através de uma coreografia mecanizada de esculturas-marionetas. O projeto de joalharia parte da trilogia das Barcas, de Gil Vicente, para encenar o imaginário associado à metamorfose da travessia, da vida para a morte.

Na exposição expandem-se múltiplas narrativas, como se de um espaço cénico se tratasse. Nele, treze personagens dos Autos atualizam os tipos da época, tomam novas formas e juntam-se aos seus destinos, zoomorfizados, personificando a transformação que decorre da viagem para o céu, inferno ou purgatório.

Ironia e crítica reúnem-se num alinhamento performativo que dá conta de diálogos improváveis entre a forma e a ficção. As delicadas figuras, feitas em ouro, prata ou bronze, surgem perfiladas nas vitrinas, perfeitamente articuladas entre si, e remetem para a imperfeição da sociedade e dos seus valores.

Passagem para um outro lado é um projeto artístico sobre o paralelismo dos ícones de duas épocas que faz ecoar a voz e a força simbólica da literatura, revista na perspetiva da criação contemporânea.

 

O riso da morte sopra pelo ar

Vêm de muito longe, dos finais da Idade Média, foram inventadas para viver entre a vida e a morte, surgem nas “Barcas” de Gil Vicente e aguardam a passagem para o outro lado.

Sim, Teresa Milheiro parte das personagens vicentinas, as que viram a luz no teatro, aquelas que no cais final, vêem a sua vida ser pesada, julgada, premiada ou castigada. São os onzeneiros, as alcoviteiras, o parvo, mas também o papa, o imperador. E o diabo que aqui também é anjo. Ou o judeu que aqui é o palestiniano, o que está do outro lado, fora das barcas. E são marionetas pequenas, feitas de materiais inesperados, ouro, prata, alpaca, também latão. Marionetas agitadas por fios, oscilantes.

Teresa Milheiro gosta de articulações, joga com elas, as suas peças aspiram por um movimento aéreo, são matéria de nuvens, sobrevoam delicadamente o mundo, ameaçadoras também, pestíferas.

E andam por aqui, são banqueiros, CEO’s de multinacionais, proxenetas, gente manipulada, duvidosa, gente com armas, patrões do petróleo, gente que manda em tudo isto, e andam por aqui, assombradas.

E vemo-las depois de passarem pelo rio da morte, transformam-se. E ficam peixes, polvos, melgas, animais tremendos do fundo dos mares (é o seu inferno cheio de fantasmas?), peixes com asas, com os mil olhos das câmaras de segurança, dançando de novo esta dança da morte que Gil Vicente para sempre bailou.

E há um riso sobre tudo isto, tudo é irónico, esta nossa subserviência, este barrete do parvo que também é das rituais festas do futebol, este papa fragilizado e apenas manobrado por cordéis à boca voraz de um peixe mortal.

Teresa Milheiro olha este carnaval do mundo sem piedade, com um riso. Um riso de quem não acredita, um riso de pé atrás.

Esta uma dança da morte sarcástica, impiedosa. E fica uma inquietação: somos isto, vivemos desta ganância, desta manipulação?

Jorge Silva Melo | Junho 2016

 

Ficha técnica

Coordenação geral, produção executiva, montagem e iluminação de exposição 
Museu do Dinheiro - Departamento de Serviços de Apoio/Banco de Portugal

Arquitetura, projeto museográfico, gráfico e comunicação 
Departamento de Serviços de Apoio/Banco de Portugal

Estruturas e manutenção
Departamento de Serviços de Apoio/Banco de Portugal

Tradução
Banco de Portugal

Segurança
Departamento de Serviços de Apoio/Banco de Portugal

Informações

Exposição temporária que ocorreu entre 30 de junho e 15 de outubro de 2016.
No âmbito do Plano Tangente um programa de exposições temporárias do Museu do Dinheiro que visou a divulgação da criação artística emergente, nas suas várias disciplinas. O programa contemplou a apresentação do trabalho de artistas portugueses contemporâneos, em diálogo com a arquitetura do museu e as suas coleções.

Durante o decorrer da exposição ocorreu uma visita orientada pela Teresa Milheiro.

Mais informações para info@museudodinheiro.pt ou +351 213 213 240

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