Passagem para um outro lado - Teresa Milheiro

3.00 €

Informação

Jorge Silva Melo

Vêm de muito longe, dos finais da Idade Média, foram inventadas para viver entre a vida e a morte, surgem nas “Barcas” de Gil Vicente e aguardam a passagem para o outro lado. Sim, Teresa Milheiro parte das personagens vicentinas, as que viram a luz no teatro, aquelas que no cais final, vêem a sua vida ser pesada, julgada, premiada ou castigada. São os onzeneiros, as alcoviteiras, o parvo, mas também o papa, o imperador. E o diabo que aqui também é anjo. Ou o judeu que aqui é o palestiniano, o que está do outro lado, fora das barcas.

E são marionetas pequenas, feitas de materiais inesperados, ouro, prata, alpaca, também latão. Marionetas agitadas por fios, oscilantes. Teresa Milheiro gosta de articulações, joga com elas, as suas peças aspiram por um movimento aéreo, são matéria de nuvens, sobrevoam delicadamente o mundo, ameaçadoras também, pestíferas.

E andam por aqui, são banqueiros, CEO’s de multinacionais, proxenetas, gente manipulada, duvidosa, gente com armas, patrões do petróleo, gente que manda em tudo isto, e andam por aqui, assombradas.

E vemo-las depois de passarem pelo rio da morte, transformam-se. E ficam peixes, polvos, melgas, animais tremendos do fundo dos mares (é o seu inferno cheio de fantasmas?), peixes com asas, com os mil olhos das câmaras de segurança, dançando de novo esta dança da morte que Gil Vicente para sempre bailou.

E há um riso sobre tudo isto, tudo é irónico, esta nossa subserviência, este barrete do parvo que também é das rituais festas do futebol, este papa fragilizado e apenas manobrado por cordéis à boca voraz de um peixe mortal.

Teresa Milheiro olha este carnaval do mundo sem piedade, com um riso. Um riso de quem não acredita, um riso de pé atrás.

Esta uma dança da morte sarcástica, impiedosa.

E fica uma inquietação: somos isto, vivemos desta ganância, desta manipulação?

Junho 2016

 

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