Cada dia - Pedro Valdez Cardoso

3.00 €

Informação

João Silvério

A obra de Pedro Valdez Cardoso (Lisboa, 1974) confronta-nos com um elenco de questões que atravessam a história social da humanidade. Seria porventura mais óbvio falar da condição humana, mas no meu entender essa categoria revela-se na obra de Valdez Cardoso em diversos desdobramentos, onde a prática artística é crucial para compreendermos alguns dos mecanismos da representação e interpretação que o artista desenvolve com forte asserção crítica. Por outro lado, esta prática conhece um léxico formal e conceptual dificilmente identificável com uma qualquer disciplina artística ou com uma outra filiação estética, independentemente do tema abordado pelas suas obras, as quais, na maior parte dos casos, não se circunscrevem ao tema enquanto objeto mas de facto ao contexto em que esse tema se inscreve.

É este o caso da exposição cada dia, apresentada no espaço do Museu do Dinheiro. Consiste em duas obras, intituladas “cada dia” e “em pé”, que se configuram por um uso austero (mas de certa forma genérico) dos materiais, como é reconhecido no trabalho deste artista. Uma carroça e um par de chinelos constroem um arco temporal e simbólico que nos leva a pensar sobre o credo religioso, “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” (Mateus 6:11), decorrente da “Oração que o Senhor nos ensinou”, mas que se tornou também uma expressão popular. A ligação entre a formulação do sagrado na existência humana, o pão como o corpo de Cristo, e o vernáculo que estabelece essa consciência universal presente no “pão nosso de cada dia”, cuja transmissão boca a boca traduz o valor do alimento, o valor do trabalho e simultaneamente o valor da escassez e dos meios, constrói-se nestas obras por uma pele de sarapilheira que reveste a carroça e pela folha de ouro que reveste os chinelos. Estes materiais, por um lado pobres e por outro nobres, mas resistentes ao tempo, oferecem ao espectador um diálogo ambíguo com uma pilha de pães em ouro que a carroça suporta, estacionada no coro alto da antiga Igreja de São Julião. Este lugar, outrora sagrado, foi posteriormente uma garagem e é hoje um museu que decanta uma história do dinheiro. Os chinelos são assim a memória do caminho, do corpo que lhe assenta e um sinal da humanidade em trânsito permanente, que o ouro transforma numa relíquia dos inúmeros caminhos que o dinheiro desenha nas sociedades humanas.

É neste sentido que referi acerca da obra de Pedro Valdez Cardoso que o tema enquanto objeto abre outros campos ao contexto em que esse tema se inscreve. Neste âmbito, o cruzamento de referências tem fontes tão diversas como as que o artista, enquanto homem, introduz nas suas obras e noutras que estão agregadas à história do lugar, não apenas enquanto correlato do passado, mas essencialmente enquanto reflexão sobre o presente.

Junho 2016

 

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